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O direito à aprendizagem

O Globo, 14/07/2010 - Rio de Janeiro RJ

 

Ivan Bilheiro

 

 

O alerta com relação à questão da educação já vem sendo feito há algum tempo. Já não é de hoje que se tem travado uma difícil batalha para que ela seja reconhecida como primordial, que entre para a lista das prioridades do país e para que, enfim, seja encarada com a devida atenção pela sociedade, pelos políticos e, principalmente, pelos governantes. As eleições de 2010 trazem, porém, uma nova chance para que esta bandeira seja levantada.

Para que o assunto entre, com a devida importância, na agenda política dos candidatos que aí se apresentam, é necessário que a sociedade esteja atenta à questão e a discuta com seriedade. Mas é imprescindível fazer um debate acertado, com o devido foco, a fim de que a sociedade se posicione corretamente e, por conseguinte, possa cobrar de seus representantes e governantes a devida responsabilidade com relação ao tema.

 Quanto se trata da questão da educação, muitos discursam no sentido de garantir a todos o direito à educação. Aliás, é válido considerar que este ponto já é presente nas falas e nos programas de todos aqueles que se candidatam para representar a sociedade na instância política e/ou para governá-la. Qual seria, então, o problema?

Direito à educação x direito à aprendizagem

Trata-se de uma dificuldade extremamente prejudicial ao futuro do Brasil: a discussão sobre o direito à educação acaba sendo esvaziada, uma vez que já se tornou lugar-comum no discurso eleitoreiro e não apresenta nenhuma contribuição significativa. O que urge ser levado em consideração é mais profundo, mais relevante: deve-se lutar pelo direito à aprendizagem.

Há uma diferença fundamental entre estas duas bandeiras, a saber: quando a sociedade clama pelo direito à educação especificamente, o discurso eleitoreiro (aquele adotado pelos que podem ser chamados de politicóides, os que não honram o sistema político por só terem intenções de utilizar os cargos em benefício próprio) encontra a oportunidade de adotá-lo como meio de garantir votos.

Contudo, inserir o direito à educação em um programa de governo não diz nada com relação à qualidade da educação, esta sim a garantia de um futuro melhor para a sociedade brasileira. Um candidato que afirma lutar para que todos os brasileiros tenham direito à educação fala, muitas vezes, de acesso à educação. Assim, cria-se e recria-se o cenário de escolas mal conservadas, com alunos que lá se encontram sem tirar nenhum proveito (quando muito, a merenda escolar), professores pouco satisfeitos com o exercício da profissão, e por aí vai.

Escolas deste tipo podem representar o direito à educação e serem apresentadas, por meio de dados estatísticos, como bons resultados, mas elas não representam o direito ao futuro para o país. Se a sociedade se conscientizar de que a verdadeira luta deve ser pelo direito à aprendizagem (que quer dizer uma educação de qualidade), um novo cenário poderia ser construído: a simples acumulação de alunos nos estabelecimentos de ensino pode representar o direito à educação em um sentido restrito, quanto ao acesso, mas somente com a verificação do processo de aprendizagem ali é que se pode falar em resultados em prol do Brasil.

Por outro lado, professores mal remunerados ou com péssimas condições de trabalho não encontram meios de garantir a aprendizagem dos estudantes e, caso se lute justamente pela aprendizagem, esta situação precisa, necessariamente, ser modificada. Existem, ainda, meios mais objetivos de verificar os resultados quanto aos planos de governo se a questão da educação for abordada sob esta perspectiva: as avaliações feitas do sistema educacional.

Conclui-se, por fim, que cumpre a todos os eleitores, na posição de cidadãos responsáveis pela sociedade em que vivem, lutar pela garantia do direito à aprendizagem, por meio de uma educação de qualidade, a fim de que o sistema educacional não seja ampliado no âmbito quantitativo, mas que ganhe qualitativamente e, desta forma, proporcione melhores oportunidades para os jovens e para o próprio país.

 
 
 
 

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