|
Priscilla
Borges, iG Brasília
O ensino médio passa por uma
grande crise. A opinião praticamente
consensual entre especialistas é reforçada
por números que assustam. Da população com
idade entre 15 e 17 anos – que deveria estar
matriculada no ensino médio – apenas 48%
frequentam o ensino médio. O restante está
atrasado, ainda tentando aprender as lições
do ensino fundamental. Mas o que mais
assusta os especialistas é a quantidade de
jovens com essa idade que está fora da
escola: 18%. O número aparentemente pequeno
esconde a realidade de 2 milhões de jovens
brasileiros. Esse, na opinião de
especialistas, deve ser o grande foco das
políticas públicas para a etapa final da
educação básica.
“Não podemos encarar com
naturalidade tantos jovens fora da escola.
Estamos conseguindo absorver quem sai do
ensino fundamental, mas não colocamos no
sistema quem está fora da escola. Estamos
estagnados nessa inclusão há anos e temos de
mudar isso”, opina Ricardo Paes de Barros,
pesquisador do Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea). Ricardo
apresentou, durante o seminário Educação em
pauta: A crise de audiência no ensino médio,
promovido pela Campanha Todos pela Educação
nesta quarta-feira em São Paulo, dados sobre
a evolução do acesso da população brasileira
de 15 a 17 anos à escola.
O estudo feito por ele mostra
que a porcentagem dos jovens nessa faixa
etária que freqüentam a escola estagnou em
80% desde o início dos anos 2000. O
pesquisador lembra que, nos últimos anos,
os programas de correção de fluxo ajudaram
os índices de jovens com idade entre 15 e 17
anos no ensino médio a aumentarem. “Em algum
momento, conseguimos atrair os adolescentes
que terminam o ensino fundamental para a
etapa seguinte. Mas há uma taxa de retenção
na 8ª série de 5%, que se mantém há 15 anos.
É um dado que precisa ser considerado
também”, pondera.
Ricardo acredita que muitos
adolescentes acabam desistindo de continuar
os estudos porque não recebem respaldo
suficiente da escola para superar
deficiências anteriores ao ensino médio.
Para ele, a reprovação não garante o
aprendizado do aluno. “Não faz sentido
obrigar uma pessoa a reaprender o que ela já
sabe para tentar sanar o que ela não sabe. A
escola deveria manter programas que o ajudem
enquanto ele adquire novos conhecimentos”,
diz.
Sem justificativas - Durante o
seminário, uma publicação com diferentes
artigos que tentam mostrar a falta de
interesse dos jovens pelo ensino médio foi
divulgada. Os textos apontam quantos estão
fora das salas de aula e quantos desistem da
escola, mas não revelam as causas para o
desinteresse. Novas pesquisas serão feitas a
partir de agora para tentar identificá-las.
Wanda Engel, superintendente do
Instituto Unibanco (que promoverá os
estudos), afirma que é preciso dar
visibilidade às necessidades da etapa final
da educação básica. “O ensino médio é uma
bomba-relógio prestes a explodir”, afirma.
Wanda lembrou que o desemprego juvenil é
três vezes maior do que nas outras faixas
etárias. “O déficit de mão-de-obra não
existe por falta de vagas, mas por falta de
qualificação”, destaca.
Para a superintendente, os
candidatos aos governos estaduais não estão
se dando conta de que precisam incluir o
ensino médio entre as propostas políticas de
governo. “Os governos estaduais são os
responsáveis pela oferta do ensino médio e
não falam deles nas propostas. Essa é a hora
e a vez do ensino médio”, comenta.
Desigualdades históricas
- A maioria da população brasileira com 30
anos possui apenas nove anos de estudo, o
que significa ter completado apenas o ensino
fundamental. Segundo Ricardo Paes de Barros,
isso representa um atraso histórico de três
décadas comparado ao nível de escolaridade
da população chilena. “Ainda temos desníveis
em acesso à escola muito grandes.
“Não podemos achar que o
problema de quantidade está resolvido e só
basta melhorar a qualidade”, diz. O
pesquisador afirma que 80% dos jovens da
classe mais rica da população completam o
ensino médio com 19 anos. Essa mesma meta só
é atingida por 20% dos estudantes das
famílias mais pobres. “Não estamos sendo
capazes de reduzir desigualdades”, garante.
Na opinião de Eunice Durham, professora da
Universidade de São Paulo (USP), o estudante
brasileiro precisa de mais opções de
formação no ensino médio. O ensino técnico,
segundo ela, é apenas uma delas. “Essa fase
precisa ser diversificada. Mesmo quem
escolhe a formação profissional precisa
aprender lições para passar no vestibular.
Isso é um absurdo”, pondera. |